sexta-feira, 28 de outubro de 2011

díspares

A tua negligência
Nesse exato momento
Mata um boto
Um tigre
E uma capivara triste

Tua inércia inata
É dormente aos teus sonhos
Embriaga o índio
Te tira do prumo num só corte

Quanto a mim,
Capitão nunca fui
Nem soldado, mesmo assim
Me preparei para as grandes cruzadas

Estendi a mão para o ônibus dos comuns
E meu cão nem latiu

Carrego poucas coisas
Um punhado de estrelas no bolso
E um peito cheio que de dia
Por vezes chia.

tempos modernos

vivia só,
andava a pé.

sem carro,
sem carinho.

vez ou outra pegava a internet do vizinho.

censo

Atualmente, o Brasil tem 190 milhões de habitantes
e um poeta: eu.

Na verdade, dois.
Eu e o Ferreira Gullar. 

O único poeta vivo no momento é o Ferreira Gullar. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

pixel

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televisão

A televisão da madrugada me desconhece do lado de cá. Tenta me pegar pela ilusão que perdi a muito tempo, ou pelo dinheiro que nunca tive. Três canais vendem tapetes caros  e quadros de mau gosto, dois passam filmes de carros que explodem e quatro disputam com retórica ultrapassada a existência de deus. Num deles leio, no canto direito da tela, uma sentença trágica e curiosa: “Qual o motivo da tua tristeza?” Abaixo, um número. Ligo. Pergunto se é difícil. Ele diz que basta ter fé. Desligo, a tv também. A casa fica quieta. Da sala, ouço os relógios da cozinha e do quarto. Lá fora, os cães próximos, os mais distantes. Na avenida, motores procuram alguma coisa: uma puta, um boteco, uma vítima, um motivo pra testemunhar mais um dia. Já é madrugada e eu também resisto, feito um móvel da casa. Eu e a casa, respirações sincronizadas. A tv não late mais e os cães anunciam a permanência de tudo.