A televisão da madrugada me desconhece do lado de cá. Tenta me pegar pela ilusão que perdi a muito tempo, ou pelo dinheiro que nunca tive. Três canais vendem tapetes caros e quadros de mau gosto, dois passam filmes de carros que explodem e quatro disputam com retórica ultrapassada a existência de deus. Num deles leio, no canto direito da tela, uma sentença trágica e curiosa: “Qual o motivo da tua tristeza?” Abaixo, um número. Ligo. Pergunto se é difícil. Ele diz que basta ter fé. Desligo, a tv também. A casa fica quieta. Da sala, ouço os relógios da cozinha e do quarto. Lá fora, os cães próximos, os mais distantes. Na avenida, motores procuram alguma coisa: uma puta, um boteco, uma vítima, um motivo pra testemunhar mais um dia. Já é madrugada e eu também resisto, feito um móvel da casa. Eu e a casa, respirações sincronizadas. A tv não late mais e os cães anunciam a permanência de tudo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário