sexta-feira, 14 de outubro de 2011

para bandeira

se existir sentimento na morte
terei saudade das pequenas canções que fiz
e esqueci

dos contos do borges
que não li

vou sorrir
por nunca ter entendido de política
mas percebido a contradição
da República do Café com Leite
num país de famintos

- olhai os filhos do campo de batalha
já não sonham, carregam rifles
e retratos de pequenas
que lhes servirão de mortalha

sorte tenho eu
não fiz amigos em Sarajevo
não sou sobrinho da Kim Puch
e meu avô não foi da juventude nazista
feito um papa

quando eu morrer
talvez pela primeira vez
não queira ver Deus
tenho medo que ele exista
e que eu não possa perdoá-lo

talvez a voz continue depois da morte
mesmo de um outro jeito
mesmo que ninguém me ouça
num grito vou dizer
todos os versos que fiz
e não publiquei
não se fala dos medos quando não te perguntam nada

por que penso tanto na morte?
tinha apenas que ter ido
ao banco ao mercado ao sebo
mas ainda estou aqui

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