corto curita com pés de navalha
e alimento com calma
um leão por aurora.
sábado, 29 de outubro de 2011
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
díspares
A tua negligência
Nesse exato momento
Mata um boto
Um tigre
E uma capivara triste
Tua inércia inata
É dormente aos teus sonhos
Embriaga o índio
Te tira do prumo num só corte
Quanto a mim,
Capitão nunca fui
Nem soldado, mesmo assim
Me preparei para as grandes cruzadas
Estendi a mão para o ônibus dos comuns
E meu cão nem latiu
Carrego poucas coisas
Um punhado de estrelas no bolso
E um peito cheio que de dia
Por vezes chia.
tempos modernos
vivia só,
andava a pé.
sem carro,
sem carinho.
vez ou outra pegava a internet do vizinho.
andava a pé.
sem carro,
sem carinho.
vez ou outra pegava a internet do vizinho.
censo
Atualmente, o Brasil tem 190 milhões de habitantes
e um poeta: eu.
Na verdade, dois.
Eu e o Ferreira Gullar.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
pixel
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televisão
A televisão da madrugada me desconhece do lado de cá. Tenta me pegar pela ilusão que perdi a muito tempo, ou pelo dinheiro que nunca tive. Três canais vendem tapetes caros e quadros de mau gosto, dois passam filmes de carros que explodem e quatro disputam com retórica ultrapassada a existência de deus. Num deles leio, no canto direito da tela, uma sentença trágica e curiosa: “Qual o motivo da tua tristeza?” Abaixo, um número. Ligo. Pergunto se é difícil. Ele diz que basta ter fé. Desligo, a tv também. A casa fica quieta. Da sala, ouço os relógios da cozinha e do quarto. Lá fora, os cães próximos, os mais distantes. Na avenida, motores procuram alguma coisa: uma puta, um boteco, uma vítima, um motivo pra testemunhar mais um dia. Já é madrugada e eu também resisto, feito um móvel da casa. Eu e a casa, respirações sincronizadas. A tv não late mais e os cães anunciam a permanência de tudo.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
preso a prazo
quando o tabaco encontra o peito
pequeno barato bate à cuca
descrente, ela toma café.
pequeno barato bate à cuca
descrente, ela toma café.
no ócio oscila entre a meta
e de quebra a cabeça concreta
grita meu nome, zé.
e de quebra a cabeça concreta
grita meu nome, zé.
respiro comprometido e calcificado
me dispo do colo da tarde calado.
me dispo do colo da tarde calado.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
a mosca quântica
A palma da mão aberta
O inseto incerto acerta
Na hora que não é
certa
O inseto que não é
flecha
A palma que não é
meta
nuvens
E a natureza de ti
Não se irrita
Nem se borra
Como pensa teu pecado sem importância.
Se ri toda,
Boba do teu mimo mitológico.
Oxum e Oxóssi concordam:
Não aparecem em teus sonhos.
O rio leva tudo,
Menos um nome deste
Que lhe deste.
E se tivessem bocas
As nuvens ririam ao vê-lo caminhar
Mascando sob o sol teu próprio ópio só.
E se tivessem vontade
Talvez dissessem:
Volte pra casa, homem bom
Tua igreja está vazia.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
para bandeira
se existir sentimento na morte
terei saudade das pequenas canções que fiz
e esqueci
dos contos do borges
que não li
vou sorrir
por nunca ter entendido de política
mas percebido a contradição
da República do Café com Leite
num país de famintos
- olhai os filhos do campo de batalha
já não sonham, carregam rifles
e retratos de pequenas
que lhes servirão de mortalha
sorte tenho eu
não fiz amigos em Sarajevo
não sou sobrinho da Kim Puch
e meu avô não foi da juventude nazista
que não li
vou sorrir
por nunca ter entendido de política
mas percebido a contradição
da República do Café com Leite
num país de famintos
- olhai os filhos do campo de batalha
já não sonham, carregam rifles
e retratos de pequenas
que lhes servirão de mortalha
sorte tenho eu
não fiz amigos em Sarajevo
não sou sobrinho da Kim Puch
e meu avô não foi da juventude nazista
feito um papa
quando eu morrer
talvez pela primeira vez
não queira ver Deus
tenho medo que ele exista
e que eu não possa perdoá-lo
talvez a voz continue depois da morte
quando eu morrer
talvez pela primeira vez
não queira ver Deus
tenho medo que ele exista
e que eu não possa perdoá-lo
talvez a voz continue depois da morte
mesmo de um outro jeito
mesmo que ninguém me ouça
num grito vou dizer
num grito vou dizer
todos os versos que fiz
e não publiquei
não se fala dos medos quando não te perguntam nada
por que penso tanto na morte?
tinha apenas que ter ido
não se fala dos medos quando não te perguntam nada
por que penso tanto na morte?
tinha apenas que ter ido
ao banco ao mercado ao sebo
mas ainda estou aqui
espelho
Cansei do conceito oblíquo e pesado das noites do nosso fingir
Palavra-receita é o absurdo
Dois assustados sobre o mesmo mundo
E quanto mais vejo pra além desse espelho
Melhor é o momento
Num eco revelo melhor é o momento
Otários são pagos pra dar risada
Se tivesse vontade, diria assim:
Eu é que só sei de mim.
Cigarro no dedo amarelo no dedo
Nó de fumaça que passa que pisa
Que pisa em flor-mato de câncer
Que pisa em brisa
Dualidade combina
A vida é a ausência da rima
Estrela cadente é asterisco.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
a praça
Com certeza te incomodam
Entorpecem te tropeçam
Fazem desse ti não seu
Tanta coisa que não é.
Na cidade dos confusos
Todos falam ao mesmo tempo
Sortes mortes risos choros
São jornais dos embrulhados
Feito estômagos comidos.
(Desavisos da manchete
Que secou este lugar)
Quando a luz do sol repete
Faz do teu engano um mito
Igualando nossas peles
Minha voz se recupera
Num resto de sem sentido.
(No que não foi repartido)
Calço o saco do silêncio
Antes peço do que dispo
Que os pingentes não ofusquem
Num soslaio, esse teu olho.
Seque a vela, sê calado
Pensar será teu pecado
Sangre o que há de santo em ti
Na reluta mutação.
Que as palavras pelas tantas
Se dissipem em desespero
Caiam todos das cadeiras
Submetam metafísicas.
(Que os gestos não resistam)
No olhar há uma além-dor
Bem maior que a que não dói
Desespero é resultado
Da estagnação do chumbo
Que num eco em ti, corrói.
ditado
A poesia se esconde na metalinguagem do absurdo.
Foi-se o tempo em que poeta bom era vivo.
Hoje, a poesia mais sincera se encerra na boca de um mendigo.
Quase um grito na quase porta do sinal fechado
O mau trapilho mau tratado engole um hoje não
Resmunga duas moedas de duas sentenças de dois pequenos poemas
Derrama o verso pra dormir no sol.
Bebe água com calma
É um poema que anda
Já não tem aonde ir.
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